O Tesouro Direto é o programa de venda de títulos públicos federais para pessoas físicas criado pelo governo brasileiro em parceria com a B3 em 2002. É, ao mesmo tempo, o investimento mais seguro disponível no país e um dos menos compreendidos. Muita gente tem conta no Tesouro Direto sem entender exatamente o que está comprando, o que pode e o que não pode acontecer com seu dinheiro. Este guia resolve isso.
O que você está comprando quando investe no Tesouro Direto
Quando você compra um título do Tesouro Direto, está emprestando dinheiro ao governo federal brasileiro. Em troca, o governo se compromete a devolver esse valor acrescido de juros em uma data futura (o vencimento). A segurança é máxima porque o credor é o governo federal — a instituição com menor risco de crédito do país em moeda local.
Isso tem uma implicação importante: o Tesouro Direto não tem garantia do FGC (Fundo Garantidor de Créditos), porque não precisa. O FGC garante depósitos em bancos privados porque esses podem quebrar. O governo federal, em moeda local, tecnicamente não pode quebrar — pode emitir moeda para honrar compromissos. O risco real é de inflação, não de calote.
Os três tipos de título: como funcionam e quando usar cada um
Tesouro Selic (LFT)
É o título mais simples e mais indicado para iniciantes. Rende a taxa Selic Over diariamente, sem marcação a mercado relevante. O preço da cota sobe todos os dias, nunca recua.
Características:
- Liquidez: resgate em D+1 (dinheiro na conta no dia útil seguinte)
- Rentabilidade: 100% da Selic Over (praticamente igual ao CDI)
- Risco de mercado: mínimo — não há oscilação de preço relevante
- Taxa de custódia B3: 0,20% ao ano sobre o valor investido
- IR: tabela regressiva (22,5% a 15%) sobre o lucro no resgate
Para que serve: reserva de emergência, objetivos de curto prazo (até 2 anos), parcela do portfólio que precisa de liquidez imediata.
Tesouro IPCA+ (NTN-B)
Paga IPCA + taxa prefixada. Se você compra Tesouro IPCA+ 2035 a IPCA + 6,5% ao ano, receberá exatamente isso no vencimento — independentemente de quanto o IPCA acumular nos próximos anos. É o único instrumento de renda fixa que garante retorno real positivo.
Características:
- Dois formatos: com juros semestrais (pagam cupons de 6% ao ano) ou sem (acumulam tudo no vencimento)
- Tem marcação a mercado: o preço oscila diariamente com base nas taxas de mercado
- Se resgatar antes do vencimento, pode ter ganho ou perda em relação ao contratado
- Se carregar até o vencimento, recebe exatamente o prometido
Para que serve: proteção contra inflação de longo prazo, aposentadoria, objetivos com prazo definido de 5+ anos.
Tesouro Prefixado (LTN e NTN-F)
Taxa fixada no momento da compra. Se compra Tesouro Prefixado 2028 a 13% ao ano, receberá exatamente 13% ao ano composto até o vencimento — independentemente de onde a Selic for.
Características:
- Alta sensibilidade a juros (marcação a mercado intensa)
- Você "aposta" que a taxa atual é boa e vai permanecer assim ou cair
- Vencimento mais curto = menor oscilação de preço
- Formato LTN (sem cupom) e NTN-F (com cupons semestrais de 10% ao ano)
Para que serve: travar rentabilidade quando você acredita que os juros vão cair, objetivos com data definida onde você sabe que não vai resgatar antes.
A marcação a mercado explicada de forma simples
Esse é o conceito que mais confunde investidores iniciantes e causa resgates desnecessários com prejuízo. Marcação a mercado é a atualização diária do preço de um título com base nas taxas negociadas no mercado naquele dia.
Funciona assim: imagine que você comprou Tesouro IPCA+ 2040 a IPCA + 6,0% ao ano. No mês seguinte, as taxas de mercado para esse título subiram para IPCA + 7,0%. Seu título, que oferecia retorno menor, ficou relativamente menos atrativo — então seu preço de mercado cai. Se você resgatar nesse momento, recebe menos do que investiu (em termos nominais, ou menos do que esperava em termos reais).
Mas se você não resgatar e mantiver até o vencimento, a marcação a mercado não existe para você. Você receberá exatamente o que foi prometido na compra. O preço de mercado varia todo dia, mas o contrato não muda.
Conclusão prática: nunca invista em títulos com vencimento longo se você pode precisar do dinheiro antes. Para liquidez, use Tesouro Selic.
Quanto custa investir no Tesouro Direto
Os custos do Tesouro Direto são mais baixos do que qualquer fundo de renda fixa, mas existem:
- Taxa de custódia da B3: 0,20% ao ano sobre o valor do título, cobrada semestralmente em janeiro e julho. Afeta diretamente o rendimento líquido, especialmente em valores menores.
- Taxa da corretora: a maioria das corretoras cobra zero. Evite qualquer corretora que cobre taxa de corretagem para Tesouro Direto.
- IR: tabela regressiva — 22,5% para resgates até 180 dias, 20% até 360 dias, 17,5% até 720 dias, 15% acima. Incide apenas sobre o lucro.
- IOF: apenas se resgatar antes de 30 dias. Após 30 dias, sem IOF.
Como comprar: passo a passo
- Abra conta em uma corretora habilitada — XP, Rico, NuInvest, BTG, Genial, entre outras. O processo é 100% digital, sem taxa.
- Acesse a área de Tesouro Direto dentro da plataforma da corretora.
- Escolha o título com base no seu objetivo (veja a seção anterior).
- Defina o valor — o investimento mínimo é de R$ 30 ou 1% do valor do título (o que for maior).
- Confirme a compra — o título aparece na sua carteira no dia útil seguinte.
Você também pode comprar diretamente pelo site do Tesouro Direto (tesourodireto.com.br), mas a experiência é melhor pelas corretoras modernas.
Perguntas frequentes dos iniciantes
Posso perder dinheiro no Tesouro Direto?
Perda nominal (resgatar menos do que aplicou) é muito improvável no Tesouro Selic e só ocorre em IPCA+ e Prefixado se você resgatar antecipadamente em um momento de marcação negativa intensa. Se carregar até o vencimento, a rentabilidade contratada é garantida. Não existe risco de crédito.
Qual é o melhor título do Tesouro Direto hoje?
Depende do seu objetivo. Para emergência: Tesouro Selic. Para proteger poder de compra no longo prazo: Tesouro IPCA+. Para travar taxa alta antes de corte de juros: Prefixado. Não existe melhor absoluto — existe o mais adequado para cada objetivo.
Tenho R$ 500. Vale a pena começar no Tesouro Direto?
Sim. O investimento mínimo é de R$ 30. Com R$ 500 no Tesouro Selic, você já tem acesso à mesma taxa que grandes investidores e liquidez em D+1. O efeito dos juros compostos começa a trabalhar desde o primeiro real investido.
Tesouro Direto é melhor que poupança?
Na quase totalidade dos cenários, sim. A poupança rende 70% da Selic quando a Selic está abaixo de 8,5% ou 0,5% ao mês + TR quando a Selic está acima. O Tesouro Selic rende 100% da Selic Over menos a taxa de custódia de 0,20% ao ano. Com Selic acima de 8,5%, o Tesouro Selic supera a poupança com liquidez equivalente e sem limite de garantia.
Estratégia para diferentes perfis
Conservador: 70% Tesouro Selic, 30% Tesouro IPCA+ de prazo médio (2028–2030). Alta segurança, retorno real positivo, sem volatilidade relevante.
Moderado: 40% Tesouro Selic (reserva), 40% Tesouro IPCA+ 2035+, 20% outros ativos. Maximiza retorno real de longo prazo com reserva de liquidez.
Tático (Selic em queda): adicionar posição em Tesouro IPCA+ longo ou Prefixado para capturar valorização de marcação a mercado. Risco maior, potencial de retorno maior no curto prazo.
Conclusão
O Tesouro Direto é o ponto de partida perfeito para qualquer investidor porque combina segurança máxima, baixo custo, acessibilidade (R$ 30 de entrada) e diversidade de produtos para diferentes objetivos. Entender a diferença entre os três títulos e a mecânica da marcação a mercado é suficiente para tomar boas decisões com esse instrumento.
Para calcular quanto seu Tesouro vai render após impostos, use a Calculadora de IR do site. Para simular quanto tempo leva para atingir sua meta de aposentadoria, use o Simulador de Aposentadoria.