Em 22 de janeiro de 1993, um produto financeiro completamente novo foi listado na American Stock Exchange. O SPY — SPDR S&P 500 ETF Trust — foi o primeiro ETF negociado nos Estados Unidos e abriu caminho para uma revolução que transformou a indústria de investimentos global. Mais de 33 anos depois, o SPY ainda é o ETF com maior volume diário de negociação do planeta e a referência histórica quando alguém fala em "investir no S&P 500".
Para o investidor brasileiro de hoje, porém, o SPY apresenta uma questão importante: ser o pioneiro não significa ser a melhor opção. Este guia explica o que é o SPY, sua história única, como ele funciona, e — crucialmente — quando ele faz sentido e quando não faz em relação aos concorrentes modernos.
O que é o SPY e o que ele compra
O SPY replica o S&P 500 Index, o índice composto pelas aproximadamente 500 maiores empresas americanas de capital aberto, selecionadas e ponderadas por capitalização de mercado pela S&P Global. Comprar SPY é comprar exposição à Apple, NVIDIA, Microsoft, Amazon, Alphabet, e às outras centenas de empresas que compõem a espinha dorsal da economia americana.
Em termos de carteira, o SPY é praticamente idêntico ao VOO (Vanguard) e ao IVV (iShares/BlackRock): as mesmas ações, nas mesmas proporções, rastreando o mesmo índice. A diferença está na estrutura jurídica do fundo e no custo — e essas diferenças têm implicações reais para o retorno de longo prazo.
A estrutura UIT: o que torna o SPY diferente
Enquanto o VOO e o IVV são estruturados como open-end funds sob o Investment Company Act de 1940, o SPY é estruturado como um Unit Investment Trust (UIT) — a mesma estrutura legal usada quando ele foi criado em 1993, porque a estrutura open-end para ETFs ainda não existia à época.
Essa diferença estrutural tem uma consequência prática importante para o investidor de longo prazo: os UITs são proibidos de reinvestir imediatamente os dividendos recebidos das empresas do portfólio. No SPY, os dividendos recebidos da Apple, Microsoft, etc. ficam acumulados em uma conta cash sem rendimento — sem ganhar juros, sem ser reinvestidos — até o final do trimestre, quando são distribuídos aos cotistas.
Em mercados em alta, esse "cash drag" (o efeito negativo de manter dinheiro parado em vez de investido) cria uma desvantagem sistemática em relação ao VOO e ao IVV, onde os dividendos são reinvestidos imediatamente no portfólio. Estudos estimam esse impacto em 0,04% a 0,08% ao ano de retorno perdido — somado à taxa de administração já maior do SPY (0,0945% contra 0,03%), a desvantagem total pode chegar a 0,13% ao ano.
Ficha técnica completa
- Ticker: SPY (NYSE Arca)
- Gestora: State Street Global Advisors (SSGA)
- Estrutura: Unit Investment Trust (UIT)
- Índice replicado: S&P 500 Index
- Taxa de administração (expense ratio): 0,0945% ao ano
- AUM (patrimônio sob gestão): ~US$ 715 bilhões (abr/2026)
- Número de posições: 505 ações
- Lançamento: 22 de janeiro de 1993
- Dividend yield: ~1,0% ao ano, distribuição trimestral
- P/E médio da carteira: ~20,6x
- Volume médio diário: ~60–90 milhões de cotas — o mais líquido do mundo
Por que o SPY ainda tem US$ 715 bilhões em AUM?
Se o SPY é mais caro e estruturalmente menos eficiente que o VOO e o IVV, por que ainda tem quase três quartos de trilhão de dólares em patrimônio? Existem razões legítimas e bem documentadas:
Liquidez incomparável: o SPY negocia dezenas de bilhões de dólares por dia. Para um fundo de hedge que precisa entrar em uma posição de US$ 5 bilhões rapidamente, ou para uma mesa de opções que precisa fazer hedge de uma carteira institucional, o SPY oferece liquidez que o VOO simplesmente não tem no mesmo nível. O mercado de opções do SPY é também o mais desenvolvido do mundo — trilhões em contratos abertos.
Custo de troca (switching cost): muitos investidores e instituições que compraram SPY anos ou décadas atrás têm ganhos latentes significativos. Vender para comprar VOO implicaria pagar imposto de ganho de capital imediatamente. Quem está "preso" no SPY por razões tributárias faz sentido em ficar.
Inércia institucional: muitos planos de previdência corporativos, carteiras de fundos de fundos e plataformas de wealth management incluem o SPY por razões históricas e de conformidade. Trocar requer aprovação de comitês de investimento, auditoria e due diligence — burocracia que muitas instituições preferem evitar.
Data de expiração única: por ser um UIT, o SPY tecnicamente tem uma data de vencimento — 22 de janeiro de 2118, ou 20 anos após a morte do último de 11 indivíduos específicos escolhidos quando o fundo foi criado. É uma curiosidade jurídica, não um risco real para o horizonte de qualquer investidor vivo hoje.
Composição setorial e principais posições
Por rastrear o mesmo índice, a composição do SPY é idêntica ao VOO e IVV. Tecnologia da informação lidera com ~31%, seguida de financeiro (~14%), saúde (~12%), consumo discricionário (~10%) e comunicações (~9%). As 10 maiores posições incluem NVIDIA, Apple, Microsoft, Amazon, Alphabet (A e C), Broadcom, Meta, Tesla e Berkshire Hathaway B — representando cerca de 35–37% do patrimônio total.
Histórico de retornos: 33 anos de dados reais
O SPY tem o histórico mais longo de todos os ETFs de S&P 500 — 33 anos de dados reais desde janeiro de 1993. Esse histórico inclui:
A bolha dot-com (2000–2002): o S&P 500 caiu aproximadamente 49% do pico ao fundo. Quem comprou SPY no pico de março de 2000 demorou até 2007 para recuperar o valor nominal investido.
A crise financeira global (2008–2009): o S&P 500 caiu 55% do pico (outubro 2007) ao fundo (março 2009). Quem comprou em outubro de 2007 levou até 2013 para recuperar o valor nominal em dólar.
O crash do COVID (fevereiro–março 2020): queda de 34% em 33 dias úteis — a queda mais rápida de 30%+ na história do S&P 500. Seguida pela recuperação mais rápida também: o índice estava em novas máximas históricas em agosto de 2020, apenas 5 meses depois do fundo.
O mercado de baixa de 2022: queda de 19,4% no ano, impulsionada pelo ciclo de alta de juros do Fed mais agressivo desde 1980. O índice recuperou em 2023–2024.
Apesar de toda essa volatilidade, quem comprou SPY no lançamento em janeiro de 1993 e manteve até 2026 — com reinvestimento de dividendos — multiplicou o capital por mais de 30x em dólar. O retorno anualizado desde a criação foi próximo de 10,5% ao ano, consistente com a média histórica de longo prazo do S&P 500.
SPY para o investidor de varejo de longo prazo: a conclusão honesta
Para um investidor brasileiro que está montando uma carteira de longo prazo hoje — sem posição prévia em SPY, sem vínculo institucional, sem necessidade de opções ou liquidez institucional — o SPY não é a escolha ótima. O VOO e o IVV são mais baratos (0,03% vs 0,0945%), estruturalmente mais eficientes (reinvestimento imediato de dividendos) e igualmente acessíveis nas mesmas plataformas.
Isso não significa que o SPY é um mau investimento — muito pelo contrário. Quem tem SPY em carteira e não tem razões tributárias para vender pode considerar fazer a migração para VOO ou IVV ao longo do tempo, mas não há urgência que justifique um evento tributário grande agora.
Onde o SPY faz sentido para o investidor individual: quando você quer operar opções sobre o S&P 500 (o mercado de opções do SPY é infinitamente mais líquido que o do VOO ou IVV), quando sua plataforma não tem VOO/IVV disponíveis, ou quando você está fazendo operações de curto prazo onde a diferença de taxa é irrelevante em relação ao spread e à liquidez.
Riscos específicos do SPY
Cash drag estrutural: além da taxa maior, o SPY perde rendimento por não reinvestir dividendos imediatamente. Em mercados em alta, isso cria underperformance sistemática (embora pequena) em relação ao VOO e IVV.
Concentração em mega caps tech: idêntico ao risco do VOO e IVV — mais de 30% em tecnologia e concentração nas 10 maiores posições. O SPY não oferece diversificação maior que os concorrentes nesse aspecto.
Risco cambial: cotado em dólar. A variação real/dólar amplifica ou reduz os retornos em reais para o investidor brasileiro.
Valuation: com P/E próximo de 21x em abril de 2026, o mercado americano está acima da média histórica. O retorno prospectivo esperado de longo prazo é provavelmente menor do que o histórico recente.
Como investidores brasileiros podem comprar SPY
O SPY é negociado na NYSE Arca e não está disponível na B3. Para comprá-lo do Brasil, você precisa de uma corretora internacional:
Nomad (indicado para iniciantes): fintech brasileira com conta de investimentos nos EUA, plataforma 100% em português, zero comissão de corretagem e processo de abertura totalmente digital. Veja o guia completo da Nomad aqui →
Interactive Brokers (indicado para experientes): maior corretora eletrônica dos EUA, com acesso ao mercado de opções do SPY, taxas muito baixas e remuneração do saldo em dólar. Veja o guia completo da Interactive Brokers aqui →
Tributação para o investidor brasileiro
Ganhos com SPY são tributados como ganho de capital no Brasil — alíquota progressiva de 15% a 22,5% sobre o lucro na alienação. Não há isenção dos R$ 20.000 mensais para ativos internacionais. Os dividendos trimestrais sofrem retenção de 30% na fonte nos EUA. Os ativos devem ser declarados em "Bens e Direitos" no IRPF (código 74). Consulte um contador especializado para otimizar sua estrutura tributária.
Conclusão: SPY vale a pena?
O SPY é um ícone histórico dos mercados financeiros — o primeiro ETF americano, o mais líquido do mundo, e a prova viva de que investimento passivo funciona no longo prazo. Para traders, operadores de opções e institucionais que precisam de liquidez máxima, o SPY é insubstituível.
Para o investidor brasileiro de longo prazo que está começando hoje e quer simplesmente capturar o retorno do S&P 500 pelo menor custo possível, o VOO ou o IVV são escolhas mais eficientes. O SPY é respeitável demais para ser descartado, mas moderno o suficiente para ter rivais melhores para o perfil buy-and-hold.